4.04.2017

Casa Tomada II (après Julio Cortázar)




Sonhei que morava em uma casa mal-assombrada. O mal vinha de todos os lados e eu, impotente, não conseguia sair. De repente, temer aparecia vendendo uma apólice de seguro; marcela surgia em um canto escuro da sala, deitada em um ataúde.

Porque não tinha a chave, fiquei preso na casa.

Acordei contendo o grito. Era apenas um sonho.
Era?

.: Marcio Markendorf

12.07.2016

Sem título













O coração é horrível:

Uma massa de carne, 
Em artérias e veias enrodilhada

Feito gato esmagado no novelo.

Além das postas,
O pulso também assombra 

Bater de pés e portas, 
Chuva, terreiro, tambor,

Canção embriagada,
De promessas tortas
No muro,
No poste,
Atrás da estrada.

Thrill, frio na alma.

E para quê?
Muitas vezes, pra nada.

7.13.2016

Driving visions


Luzes de posição,
Chove a cântaros,
Dirijo com luzes âmbar no reboque.

Meu coração está à disposição
Da próxima curva,
Da espera por acostamento,
Da vontade de encostar meu peito
Nas tuas costas em sono só,
Marcha lenta.

Como em aquaplanagem,
Meu coração desliza pelo espelho de água funda,
Sem frenagem, fora de controle,
À espera do desastre, do ferro retorcido de nós dois
Fazendo do beijo as nossas ferragens.

Contra o guard rail,
No choque, o cárter vazou,

O bloco de motor ficou cheio de calor -
Eu também, baby, sim, por você.

Meu coração, depois, ficou monobloco,
Sobre duas pernas,
Inesperado e romântico,
Com o polegar da mão erguido.

E foi um milagre:
Sistema de transmissão
De pensamento.

Você pegou no tranco
Após a conversa da última noite,
Desceu de banguela, me pegou de carona sem cinto.

Sinto muito,
Pois agora eu vou contigo até o fim,
Sem freio, sem mão dupla,
Estrada de mão única e sentido doce.

.: marcio markendorf

6.30.2016

black friday



À chegada do séquito de consumidores, os feirantes forjam o melhor sorriso possível nos rostos ansiosos. Não existe falsa simpatia enquanto não conhecemos a fundo o coração das pessoas: é bem mais fácil acreditar que o vendedor sorri porque nos acha miraculosamente belos ou bastante simpáticos, porque lembramos seu pai, sua irmão, ex-namoricos, etc, como se remeter fisicamente a alguém da família ou antigos casos amorosos fosse bom agouro, sabendo-se lá o que cada adulto leva em sua estufada bagagem interior, isto é, sua experiência, o que pode abarcar pais abusivos, relacionamentos incestuosos e rompimentos traumáticos, e não porque está louco para nos enfiar goela abaixo novas necessidades que antes nós não entendíamos como, well, necessárias.

Hoje é dia de faturar e o sorriso falso em questão de tempo deverá ser substituído por uma genuína e expansiva gargalhada de triunfo. Imagine a risada casualmente maligna ecoando pelo infame recinto dos contadores, proporcionando um pequeno entreouvido, daqueles de firmar orelhão em cerca de madeira, das liturgias satânicas do american dream ou, neste caso, de seu irmão caçula, o latin american dream.

Espalhado por tendas na companhia de pequenas plaquinhas indicativas de preços e descontos, dá-se às vistas um inventário considerável de manuais de invocação, grimórios e cramunhões. É a promoção do dia, então o custo-benefício é incomparável. Por motivo de boa vizinhança, nenhum dos feirantes abusa no preço deslealmente baixo, evitando uma reação em cadeia de prejuízos para si e os outros. Ademais, o vilãozinho certamente seria expulso da feira ou teria sua alma maculada entregue a Belzebu num ritual sabático, pois dia útil é dia de batente.

À luz minguante, entram e saem clientes das mais diferentes classes, metade do salário, cinco por cento, que seja. Nossos produtos garantem um futuro confortável. Ai que lindo mãe posso levar, indaga uma angélica garotinha apontando para um boneco de vodu. Incapaz de resistir aos encantos da menininha, a mamãe desperdiça o câmbio para fazer sua vontade. Bacana, mas é sempre preciso ter cautela para não mimar seus filhos. É preciso impor limites ou eles sentam em cima. Morrerá em segredo o propósito deste boneco em específico.

Quando a alvorada se impõe, gloriosa, abrasada e pagã, já não sobraram muitos consumidores. É hora de animadamente desmontar as barracas, encerrar as atividades e voltar pra casa. Parabéns, pessoal, todos lucraram o dobro do mês passado e sem sacrifícios. Risadas. Viva, viva. Hoje vai todo mundo comer bem pra caramba lá em casa.

_gabriel resende santos_

5.06.2016

trilogia do ômi III: comentário sobre o infinito



Um rapaz negro, um homem branco e uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos morreram. O jornal fala do rapaz negro que morreu sugerindo nas entrelinhas que ele mereceu morrer. Em sincera consternação, todavia, pelas outras duas vítimas do mesmo acidente. Um rapaz negro morreu e a televisão fala disso durante um minuto, antes de cortar pros sovacos perfeitamente brancos da atriz branca numa propaganda de perfume caro. Um minuto também. As propagandas de cerveja importada repetem que álcool de qualidade é coisa exclusiva de homens brancos com ternos finos em carros blindados que carregam as atrizes brancas de sovacos perfeitamente brancos no fim do comercial. Um rapaz negro morreu e não vai beber cerveja importada e nem usar o terno fino, o carro importado ou o perfume caro da atriz branca de sovacos perfeitamente brancos. Atores negros surgem esporadicamente, musculosos e simpáticos.

Um rapaz negro nasceu. Nasceu já rapaz, não passou pela infância, adolescência, nem vai chegar à velhice. Um rapaz negro saiu do útero já formado, em seus um metro e setenta de altura raquíticos, matando a própria mãe ao arrancar seu estofo de órgãos junto com o cordão umbilical. O rapaz negro saiu e correu direto pro ponto em que devia morrer, arrastando uma parte da mãe, ciente por instinto de sua durabilidade deteriorada. No caminho ele cruza com garotas negras que gerarão, morrendo no processo, rapazes negros que por sua vez nascerão rapazes e morrerão no mesmo dia. Chega ao seu destino: um carro blindado dirigido por um homem branco de terno fino acompanhado de uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos que o atinge na avenida, pois o motorista perde o controle do carro e, após passar por cima do rapaz negro esmagando sua coluna e seu crânio e espalhando pedaços de cérebro no asfalto desgastado, acerta também um caminhão estacionado provocando uma explosão que incinera as três pessoas envolvidas.

O rapaz negro morreu sem tempo de tomar cerveja importada, ou vê-la, e não teve tempo de se arrepender de ter corrido em direção ao ponto e instante exatos de sua morte em vez de beber cerveja. Seus filhos, todos eles rapazes negros ou garotas negras que por sua vez gerarão outros rapazes e garotas, passarão pelo mesmo círculo porque são rapazes negros condenados a não ter infância ou velhice: um ponto numa linha reta demarca os limites da vida do rapaz, a trajetória do segmento é ínfima. O começo e o fim estão tão próximos quanto o rapaz negro e a mulher negra ficam próximos quando procriam. Seria uma boa memória ou a única, se o rapaz negro tivesse tempo de cultivá-la.

Uma garota negra nasceu. Não conheceu seu pai também rapaz nem sua mãe também garota. Sai do útero com garantia vencida e prontamente concebe uma nova garota negra e um novo rapaz negro. Olha pra trás e vê sua mãe morrendo. Um rapaz negro começa a correr encharcado de sangue arrastando o fio umbilical e o corpo da jovem mãe. Ao contrário do rapaz negro, a garota negra tira um segundo do seu único dia de vida pra chorar um pouco. Um segundo em tempo de inseto é mais do que o suficiente. Ela limpa a lágrima rápida com a mão e já está preparada pro que inarredavelmente sucederá quando o rapaz negro aparecer poucos segundos depois.

O jornal prefere não se estender com histórias. É um veículo que vai direto ao ponto, assim como o veículo do homem branco. Afirma que o rapaz negro morreu como rapazes negros sempre morreram: são rapazes negros. O jornal não explica a morte das garotas negras. O rapaz negro e a garota negra não tiveram tempo de ler o jornal, na verdade nem tiveram tempo para aprender a ler, que todo dia todo mês todo ano é estampado pela mesma manchete apesar da variação de preço. Poderia se afigurar uma importante revelação aos olhos de um homem branco rico atento ao sistema inextricável das coisas. Contudo, a maioria dos homens brancos ricos, eles que nasceram no mesmo dia homens brancos ricos, não liga se estão confinados a uma reta temporal interminável, a um ciclo complexo de paradoxos e doppelgängers. Sabem que os espera em casa um terno fino. Se a televisão estiver certa, o traje chique vai auxiliá-los na prática da conquista das mulheres brancas de sovacos perfeitamente brancos, fora as que eles já têm, irmãs ilícitas, que vão levar na festa assim que elas terminarem o que estão fazendo agora mesmo: dando à luz suas crias incestuosas. Eles não sabem que no universo só existe uma mulher branca de sovacos perfeitamente brancos e que a imortalidade era só uma enganação.




_gabriel resende santos_






imagem: crianças brincando nas ruínas, henri cartier-bresson

4.25.2016

quatro poemas





lições de estrago


1

o garoto com a cabeça deitada
nas pernas do garoto
guardadas num cabedal de injúrias
e ódio sodômico
a história exige
um ícone morto
e deposto

2

o garoto com a cabeça deitada
nas pernas da garota
essa sem coração
puta piranha maldita
roubou o olavinho o ricardinho
puto piranho piranhíssimo
pegou minha mariazinha
minha larinha minha tia
minha mãe minha filha
minha advogada minha nossa
atire nela 
neta do anticristo
calma com ele
é só um menino
não sabe o que é amor

3

a garota com a cabeça deitada
nas pernas da garota
colou às coxas
um comprido indicador
cabelos enroscados
estirando 
repulsa
caspa
minissaia 
sem vergonha
sem futuro
a piada sem graça
não afeta os cavalheiros 
desta sala palatina

4

a garota com a cabeça deitada
nas pernas do garoto
passou com 8,5

*

crueldade adolescente


décio pinto
que vislumbre da providência
tua mãe possui em louvor de que
igreja e instituição privada
qual divindade grega lhe tapa
os olhos e ouvidos que aposta
se erra que repentina tragédia
se abate ao padecer da certidão
o tatalar de tua identificação
soerguendo a risada besta
do colega a sobrancelha negra
do doutor a voz pujante
"vem cá é trote essa porra?"
destinado às insídias aos mexericos
você viu qual o nome dele você viu
repisando as locuções e anedotas
porém a chama solar vem vindo
décio também vi um pinto
atravessando a rua ele nada temia
guiado pela muleta do instinto
sim décio no lago soçobra o pinto
caniço e tosco até elástico
então tua lágrima enviesada oculta
porque um passo de mágica e décio pinto
você está vivo você ainda está vivo


*


vou incinerar teu coração de carne


                                           
nessa calcinha translúcida
sua pérola púrpura
chamo seus vários nomes
dark lady laura beatriz wanderléa
encosto nos seus ouvidos
as mãos em forma de concha
sussurro crisântemos
doce de coco
o soar do ósculo 
o suar do sovaco
monto-te no corcel
mãos e pés de fada
te levo pro mcdonald's
calorias nostálgicas
do regato de coca-cola
me come agora
porra
nenhum chamado onírico
me flutua como o porte
desse pedaço de alface
grudado ao incisivo
dessa música ruim
restando no tímpano
desse parei

*

belzec

uma ferida
incrustada no vão entre os dentes
da frente
enquanto dedo na gravata
pés no chão
calça na cueca
olho no cenário
uma piada
abafada
adiante
a plateia pede bis
você segurando a gravata
a cueca e o cenário
refaz a piada
abafada mais uma vez
e a ferida dói entre os dentes
que a língua cutuca
a piada de novo
a gravata apertada
a cueca apertada
e o tema podia ser melhor
piada imunda
como a cueca
a plateia é só risadas
jaz uma piada
hilária como nunca fora antes
uma piada
entre o cenário e a cueca 
o refletor mete brilho no chão
e um pouco de graça na sua cara
abalada
imperdoável
mas com graça
para uns
só para uns
uma cueca na boca
não cairia mal  
a ferida
entre o cenário e o chão
a divisória de fumaça
na boca nos dentes da frente
uma ofensa em alemão
a água escorre no bueiro
o suor na testa
os cadáveres empilhados
a cueca e a gravata apertadas
e a piada fazendo eco
sob o chão mais risadas
de outra plateia

*


Gabriel Resende Santos é autor do livro Elevador (Patuá, 2014) e sente-se ridículo ao se referir a si mesmo na terceira pessoa, mas sentiu mesmo assim a necessidade de fazer uma apresentação porque todos os poetas, inclusive os medianos e ruins, têm um ego maior do que admitem. Desculpe-me pela grosseria se você for poeta. Não é nada pessoal. Ou melhor, pensando bem, talvez seja. Qual o seu nome? Não, eu não saio com frequência pela rua com camisas amarrotadas, mas já pensei em vagar por aí totalmente nu. Só pensei, é claro. Peraí, do que eu tava falando mesmo?





4.07.2016

A primeira vez

Para o Rafa

A primeira vez que nos encontramos, eu estava vindo de uma festa, você estava vindo de um lugar onde deveria ter tido uma festa, mas eu já tinha estado ali, antes, naquela mesma festa em que eu encontrei você, voltei por insistência de amigos, e você, por insistência de amigos, foi cair ali, no mesmo lugar que eu. Quando, sem querer, ficamos muito próximos, os dois contra a parede, copos suados de chopp nas mãos, apertados contra a parede e a multidão, suados, nos olhamos, sorrimos mutuamente e, sem qualquer crise ou hesitação, nos entregamos ao enlaçamento secreto das mãos, longe da altura dos olhos dos outros. Dentro em pouco, confiantes, talvez pelo pequeno pileque, talvez em vista da comoção daquela hora, nos beijamos de modo intenso, embaralhado, despudorado. A intimidade veio a público e tornou-se parte da praça, também pública, agora amante ao som da música. Então vieram vindo: meus amigos foram me arrastando, me puxando, alegando estarem com fome, atrasados, prestes a perder a carona. Sequer nos despedimos direito. Para trás você ficou, enquanto eu ia para frente. E só. Sós ficamos.

Por pouco tempo.

A primeira vez que nos encontramos depois foi pelo Face. Você disse 'hey', eu disse 'hey, estou surpreso de te reencontrar'. Depois disso não paramos de falar sobre a semana que nos separou, fazendo graça com o quase desfecho do "fui-trocado-por-um-x-salada-com-coca", relembramos o clímax daquele momento, ficamos sérios e apreensivos com a confissão da vontade mútua de nos ver. De novo. E mais. Marcamos um encontro, nos despedimos.  Mas, cada qual, passou o resto do tempo sem fala a fuçar no perfil um do outro, a escondido, descobrindo pequenos pedaços, histórias, falhas, afetos, datas, só para sondar os territórios de pisada.

A primeira vez que tivemos um encontro foi em minha casa. Chamei você para um almoço, qualquer coisa com salada, sobremesa, filme de tarde, pipoca, guaraná, um programa legal. Só eu e você. Quase como uma propaganda, uma família Doriana, um casal de refrigerante. Descobri depois que você não gostava muito de carne vermelha, mas não disse nada quando servi aquele pedaço de bovino assado com batatas, alecrim e cerveja. A despeito dessa gafe, não dá nada, tivemos aquela conversa animada sobre as coisas que descobrimos sobre o outro, detetives de internet e perfil. Claro que a comida foi esfriando nos pratos, mas o coração seguiu esquentando no corpo. Encerradas duas horas à mesa, nos jogamos no sofá, escolhemos um filme e ficamos abraçados.

Foi a primeira vez que dormi com você.

Ali, no sofá, vendo um filme que nem lembro mais qual era, adormeci. Suas mãos acariciavam minha cabeça apoiada no seu peito enquanto suas costas descansavam contra umas três almofadas. Uma cachorra dormia aninhada entre nossas pernas, enchendo a cena ainda mais de languidez. Eu só acordei, babando, quando o filme já tinha terminado. A primeira vez que babei em você. Rimos da situação, do meu constrangimento, da intimidade inesperada daquele momento. Fiquei menos tímido com sua defesa: "ora, se já nos beijamos...saliva contra saliva...". Então foi quando nos beijamos mesmo. E mais.

Naquela tarde, o reino da primeira vez havia sido fundado.

Hoje, perto de um ano daquela festa, mesmo quando fazemos coisas que já fizemos outras vezes, tudo ainda parece novo e fresco. Não reclamamos de tédio tampouco reclamamos um do outro. O que mais fazemos é reclamar presença, reclamar da ausência. Por isso, por nos querermos tanto, há aquela vontade doida de verbalizar o eu-te-amo de um modo mítico - como se durante a noite o amor morresse durante o sonho e precisássemos reafirmá-lo, acordados, a cada manhã reposta. Tudo para que a primeira vez seja atemporal, sem fim, roçando doce nas mãos dadas de nós dois.

.:marcio markendorf



4.06.2016

trilogia do ômi II: seu adjetivo preferido



O cara legal espera de pé por alguma coisa ou alguém recostado numa árvore bonita em uma tarde de tempo firme. A árvore bonita combina com o cara legal, já que ambas as criaturas são pacíficas, serenas e bem-apessoadas. O cara legal espia seu celular provavelmente em busca de informações sobre o algo ou alguém que vem ao seu encontro.

O cara legal é um pouco ansioso, sem dúvida, como não poderia deixar de ser a alguém que espera sozinho numa tarde de tempo firme sob a folhagem de uma árvore bonita. Nem tanto a ansiedade de sair dali, mas a ansiedade de finalmente deixar a sombra é que ocupa os discretos vazios da mente aflita do cara legal. Resumindo: caras legais não combinam com sombras, sequer aquelas lançadas por árvores bonitas.

O cara legal tem a síndrome da perna inquieta (mas caras legais dificilmente contraem doenças com manifestações físicas aparentes, caras legais não têm doenças autoimunes), ou seja, o cara legal também está um pouco cansado de permanecer parado à espera de alguém ou algo que pode ou não ter alguma utilidade definitiva na sua vida. O cara legal é utilitário, o que aqui tem outro significado. O de que a utilidade tem valor pro cara legal como o estoicismo pro estoico. O cara legal só gosta daquilo que é útil porque o contrário forçosamente não pode ser legal.

Sabe-se que o cara legal gosta de boa música, de bons livros, de vidas boas, boas comidas, boas pessoas, boas mulheres, boas bundas, boa diversão, sabe-se que o cara legal gosta de bons e boas. O cara legal é profundamente bom. Visceralmente bom. O cara legal fica irritado com a espera e tecla algumas palavras talvez impacientes no seu celular. Esperar não é legal.

Uma vez o cara legal esperou por uma garota em circunstâncias parecidas, também recostado numa árvore bonita. O encontro com a garota foi atravessado de piadas legais e elogios legais e autodescrições legais. O cara legal teve ainda mais certeza de que era legal, uma convicção que certamente não o torna menos legal. Se a garota pensou diferente, nós não ouvimos. E o que a garota tem a dizer não é legalmente legal. É apenas um achismo. Um cara legal está acima de opiniões irrefletidas lançadas a esmo por gente desqualificada. Não que a garota seja desqualificada, nós nem sabemos o que ela disse: mas dependendo do que disse, podemos presumir algumas coisas.

O cara legal não lembra da garota. Todavia o cara legal sempre lembra de ser especialmente legal, como naquele dia em que ele contou uma piada muito legal que fez metade dos amigos rir de chorar. Ou apenas chorar, o cara legal sabe causar reações conflitantes. O cara legal tem o dom do discurso, é articulado, o cara legal é um cara capaz. Cara capaz poderia ser o codinome do cara legal.

Imagine uma legião de caras legais e portanto capazes realizando grandes obras e transformações na sociedade. Seria perfeito se não fosse impossível. Caras legais possuem uma falha natural, talvez até um pouco legal no sentido de 'uau que ironia', uma falha bruta porém romântica, que é o pormenor raramente comentado da inaptidão incontornável de reconhecer um ao outro quando se veem. Um cara legal não sabe o que é legal fora de si mesmo, sua ideia do que é legal esbarra na ideia de ser ele mesmo. O cara precede e legitima o legal. Ele é o legal em si mesmo e todo cara legal que conheça filosofia usará estas mesmas palavras para conceber sua defesa, talvez substituindo o legal por 'gênio', 'intelectual' ou 'poderoso'. Penso, logo sou legal. O cara legal que é em particular muito muito legal prefere usar sinônimos intrincados para variar a terminologia do cara legal, evitando reduzi-lo a um recurso de repetição pouco fluído ou a basear seu discurso na exploração de um adjetivo que já é bastante genérico. O cara legal é sui generis.

O cara legal que espera recostado na árvore bonita e ignora a legião de caras legais que o precedem e sucedem olha novamente para o celular e para os lados, tentando identificar o algo ou alguém que se aproxima. O cara legal é ótimo em improvisos, mas sem uma plateia vê-se obrigado a esperar encostado e mudo. A ansiedade do cara legal dobra de tamanho. Ele se pergunta sem visar pontos de interrogação: Será que o cara legal não é suficientemente legal para essa coisa que demora tanto para chegar, será que o cara legal vai ser deixado a sós com a árvore bonita e sua própria natureza legal. Estas dúvidas não são nem um pouco legais, o cara legal reconhece, mas são razoáveis. Afinal, o que significa para um cara legal descobrir que não é legal. Não que a opinião da coisa de que já não temos certeza que se aproxima pese algo nessa balança, mas o cara legal confronta-se a cada segundo com a própria autoestima relativamente não legal. Não dá pra ser legal se você não se considera legal, o cara legal diz pra si mesmo. O cara legal não está contente com esses questionamentos e começa a ficar furioso e curioso com a demora do algo ou do alguém. Será que outro cara legal, mais legal, surgiu pelo caminho. Um cara legal pode ter obstruído outro cara legal, isso legalmente devia ferir o código de ética. Ou não, nada se pode fazer quando um cara legal é mais legal do que outro. É uma competição tácita e todos os caras legais reconhecem-no em sua caçada pelo que é legal no universo. Açoitar o próprio cérebro com dúvidas nada legais é o primeiro passo para a degeneração, o cara legal bem sabe enquanto o impulso de arremessar o celular longe começa a se pronunciar no cantinho recôndito das vontades mais reprimidas do cara legal. Um cara legal não pode ser legal para sempre, não pode ser legal em paz?

Então, de repente, o cara legal olha pra direita, pois seu instinto é olhar para a direita, e descobre exatamente o que queria. Um sorriso estende-se na cara legal. Um sorriso que alguns chamariam solar e outros noturno porque as pessoas fatalmente enxergam as coisas de jeitos muito distintos, afetadas que são por graus de miopia, hipermetropia e astigmatismo. Diremos apenas que era um sorriso legal e que destarte não pode ser julgado por qualquer um que não seja legal.

O cara legal oculta o celular no bolso, sem ocultar o sorriso, e finalmente deixa a sombra da árvore bonita preparado para um abraço ou uma assinatura ou um estrondo ou um beijo ou um bicho. Sombras não combinam com caras legais.



_gabriel resende santos_









2.29.2016

trilogia do ômi I: nada como uma piada após a outra



É uma peste, com certeza. Parece um bicho, mas é uma peste. Minhas pestes só aparecem de dia. Esse aí não dá nem pra confundir, é uma peste tão óbvia que chego a ter piedade de sua obviedade. Pobre imbecil, nem pra se disfarçar direito, apertar esse passo. Vem andando lenta, torta, trescalando um cheiro horroroso. Pega a arma maria,
já pego joão que isso mais uma peste,
mais um maria não tá fácil,
é não tá fácil mesmo.

Maria me joga a espingarda e eu atiro. No crânio. Aproximo-me pra descobrir o tamanho do monstro. Nossa, essa era uma peste pesada. Devia ser jogador de basquete. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Me aparece cada coisa por aqui. Maria mais uma peste,
você tá brincando mais um,
mais um maria mais um,
toma a espingarda.

Toma, peste, toma. Mais um pro saco. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Continuam me aparecendo coisas por aqui. Aquele lá não sei se é uma peste mesmo. Tem cara de peste, mas pode não ser. Maria vem cá,
oi joão que é,
aquilo lá é peste,
claro que é,
você tem certeza,
absoluta,
vou atirar hein,
atira ué tá esperando o quê.

Atiro. Caminho temeroso. Maria era uma peste sim, não disse. Maria tinha razão. Uma peste de no máximo um metro e sessenta e cinco. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Fico ansioso. Não é uma peste. Mas por que caminha tão lentamente? Anda como as pestes andam. Pesados, cada passo um sacrifício. Fico com medo do que vem lá, melhor chamar Maria. Vem cá maria,
fala joão,
aquilo lá é uma peste,
olha não sei,
não sabe,
pode ser que sim pode ser que não,
e agora,
não sei mesmo nunca fiquei na dúvida,
atiro ou não atiro,
não sei homem,
atiro ou não atiro maria,
você que tem que resolver isso não eu.

Atiro. Com o coração na mão, caminho até a figura estropeada no chão. É uma peste mesmo. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste que nem parecia ser peste. Ouço um burburinho no ouvido direito. Alguém fala de mim? Maria você atira hoje,
eu por que eu,
porque já não sei mais o que é peste e o que não é,
nem eu sei,
olha lá é uma peste ou não é,
claro que é,
então eu já tenho quase certeza que não é,
você tá ficando esclerosado,
 por isso não posso atirar,
eu não vou fazer isso eu nem sei atirar,
eu te ensino você só precisa puxar o gatilho,
ou seja você quer me sujar a consciência se não for uma peste,
ué você é que tem certeza que é uma peste,
não farei isso joão você se vira.

Novamente, atiro no que não acredito que seja uma peste. Chego perto e é uma peste. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste. Leio o bilhete de Maria. Teve que sair pra trazer os suprimentos, logo volta. Devia ter me esperado, é perigoso. É ela que vem lá longe? Não sei. Deve ser, parece uma mulher. Mas vem tão devagar. Maria. Ela não está em casa, é verdade. Entro em casa, pego a arma, saio, aponto. É Maria. É uma peste. Atiro ou não atiro. Se eu não atirar e for uma peste, vou morrer. Há uma distância segura para acertar uma peste. Ele permanece em movimento um tempo depois da morte, ainda que acertemos a cabeça, como a galinha decepada que levou dias (ou seriam semanas? Meses?) para morrer de vez. À espera de um ovo, talvez. Fico em dúvida se atiro ou não atiro. Arrisco minha vida ou a de Maria. E se eu não conseguir matar a peste e ela ficar aqui esperando Maria. Morreremos os dois. Isso não pode acontecer. Sinto um ligeiro estremecimento de medo. Mas também não posso matar Maria. Não posso arriscar. Tenho raiva do escuro. Maria vem chegando mais perto. A peste vem chegando mais perto. Maria. Quem é. É Maria. Maria,
oi joão que cara é essa.

Eu ia reclamar de seu caminhar vagaroso. Reclamar que por motivo de segurança devia se apressar ou acenar quando estivesse vindo, mas atinei que se fizesse isso ela entenderia certamente que eu quase atirei nela, ficaria com medo, fugiria daqui, pra bem longe de mim. Maria é uma mulher mais ressabiada do que parece, é uma sobrevivente. Eu já não sei se me sobrariam forças pra continuar, não sem Maria. Olha achei centenas de sacos pra gente continuar se defendendo da peste,
que ótimo,
você tá calado hoje tá estranho,
não é nada é bobagem minha,
sei bom vamos comer,
sim vamos.

Lá vem o vulto. Atiro. É uma peste. Pego uma marreta e quebro o corpo da peste em várias partes. Depois com uma motosserra tiro os pedaços de carne podre e enfio em alguns sacos de lixo reforçados pra mandar rio abaixo. Maria me auxilia no serviço. Tchau peste.

Atiro. É uma peste. Desta vez acerto as duas pernas. Aproximo-me. Definitivamente é uma peste. “Viva”. Mesmo se arrastando é perigosa. Por isso me mantenho em movimento, rodeando-a. Ela tenta agarrar inutilmente a coisa com sangue mais próxima, ou seja, me agarrar. Me fita com seus olhos cegos, guiada na verdade pelo olfato, o sentido restante. Olho pra trás, Maria me espera com os sacos de lixo reforçados. Eu sorrio, algo que àquela distância ela não deve notar. Volto a olhar a peste. Atiro na sua cabeça, o que não muda nada por um tempo. Continua a se mexer. Espero até que pare. Maria me grita entediada querendo saber o porquê da demora. Fico rodeando a peste enquanto ela faz um esforço patético de perseguição, numa versão lenta e infrutífera de um pique-pega. Permanecemos assim por um tempo, repetindo o mesmo círculo. Até que a peste finalmente desiste. Morre de novo. Uns dez minutos, como eu esperava. Me desculpa, Maria. Coloco a espingarda na boca.



_gabriel resende santos_






imagem: sem título do ensaio "beneath the roses" de gregory crewdson

12.22.2015

The golden age



Temos olhado para aquela época como se fosse a melhor fase de nossas vidas. Talvez fosse, pois penetrar lentamente no mundo adulto é uma passagem dolorosa. As preocupações acumulam-se sobre os ombros; as exigências, na caixa de entrada. Aquele tempo era da leveza. E o próprio fato de nos referirmos àquele tempo é prova de que situamos nossa felicidade ingênua em um tempo imemorial, longínquo, sem data. Mas nem faz tanto tempo assim.

Uma década se passou desde que nos encontramos pela primeira vez. Dizer década, nesse contexto, evoca uma percepção de duração superior a dez anos. É o tempo de um ciclo, é o tempo de uma crise. E cruzamos, agora, a crise dos 30. A dos 40, quem sabe, será pior e não demora. Viver a faixa dos 20 era a glória.

Parece uma cena de filme: nós nos encontramos e, ao relembrar o passado, nos queixamos de que os tempos de hoje são outros. Mais superficiais, dizemos. Com jovens mais perdidos. Tudo mudou. Nos sentimos pré-históricos porque falamos dos lugares que costumávamos ir. Alguns já fechados. Outros abertos ainda, embora frequentados por um público tão outro, tão nada parecido com a gente, tão reformado e adaptado que nem reconhecemos mais como algo que pertenceu aos nossos pés. As festas, a música, a tecnologia daquele tempo. Tudo mudou rápido demais.

Somos tocados pela convicção de que nosso tempo era melhor. Era a idade de ouro. Metal corroído no intervalo: uma curva em negativo segue-se à apoteose da nossa pequena civilização. Por isso nosso corpo vive a nostalgia de outra época, algo bitter-sweet, cheio de memórias.

Nas poucas vezes que nos encontramos hoje, retomamos nossos feitos. Só nos esquecemos (quem sabe voluntariamente) dos efeitos daquilo sobre nós naquele tempo. Posso lembrar de alguns afetos: era tudo tão banal, aleatório, inconsequente. E, paradoxalmente, ao mesmo tempo que nos divertimos com nossas histórias de ontem, sentimos vergonha. Hoje não faríamos aquilo. Não com a experiência do presente, não com a tecnologia de agora.

Então, o que lembramos? E por que lembramos?

Queremos dar sentido aos nossos fracassos e nossas vitórias. Colocamos na caixa de guardados uns poucos itens. Ignoramos vários. Deixamos a nata. Uma película fina na qual queremos boiar. Porque a convicção de que aquele tempo foi o nosso tempo nos revigora, realça e nos permite seguir em frente. Em uma nova era.

.: marcio markendorf